quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A Pedagogia Inaciana e a relação com os saberes necessários à educação do futuro

Simone Regina Viana
Pedagoga, Bacharel em Letras e pós- graduanda em Práticas e Vertentes do Ensino-Aprendizagem da Língua Portuguesa e Literatura.

Resumo: A Pedagogia Inaciana tem abordado diversos aspectos referentes à educação e com ela uma prática que faz realmente o aluno interagir com o meio e refletir sobre o que aprende, como aprende e para que aprende não somente os conteúdos pedagógicos, mas também conteúdos de exercícios espirituais de como respeitar e valorizar o semelhante, realizando sua ação em benefício do próximo. Este artigo dará ao leitor uma breve síntese de como o trabalho a partir desta pedagogia é desenvolvido, levando em consideração os pontos do Paradigma Pedagógico Inaciano e sobre Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, de Edgar Morin.
Palavras-chave: pedagogia, contexto, experiência, reflexão, ação e avaliação.

Abstract: The Pedagogy Inaciana has addressed various aspects relating to education and with it a practice which is really the student interact with the environment and reflect on what they learn, and learn how to learn, not only to education but also spiritual exercises of how respect and value the same, making its action in favor of the next. This article gives the reader a brief summary of how the work from this pedagogy is developed, taking into consideration the points of Pedagogy Inaciana and on the Required Skills Education of the Future, Edgar Morin. Keywords: education, respect, experience, reflection, action and evaluation.


Introdução
O trabalho desenvolvido tem como objetivo retratar um pouco da Pedagogia Inaciana, uma proposta prática; seu maior objetivo e os cinco pontos levados em consideração: CONTEXTO, EXPERIÊNCIA, REFLEXÃO, AÇÃO e AVALIAÇÃO.
Para complementar a abordagem, utilizar-se-á como referência o livro Os Sete Saberes Necessários À Educação do Futuro, de Edgar Morin que visa alertar os educadores sobre a educação e sua importância para a formação de novos estudantes.
A Comissão Internacional do Apostolado Educativo da Companhia (ICAJE) criou o Paradigma Pedagógico, pois questionou os valores que deveriam haver nas salas de aula, como realizar os ideais e como incorporar a espiritualidade na vida cotidiana dos estudantes e educadores.
A ICAJE formulou uma declaração para explicar a filosofia e os processos do Paradigma e deu início ao programa de preparação dos educadores para difundir a Pedagogia Inaciana, assim para a realização do projeto deverão ser levadas em consideração às circunstâncias do local e consequentemente sua ação específica.
Algumas notas se fazem necessárias para situar o leitor sobre a Pedagogia Inaciana, como parte do seu paradigma.
· O projeto deriva da décima parte das Características da Companhia de Jesus;
· O Paradigma Pedagógica Inaciano proposto auxilia a unificação e concretização dos princípios expostos nas Características de Educação da Companhia de Jesus;
· É uma pedagogia organizada em que os métodos proponham a missão educativa contemporânea dos jesuítas;
· Comporta um estilo e processo didático particulares;
· Não destina-se apenas à educação formal nas escolas, colégios e universidades da Companhia;
· A Pedagogia Inaciana inspira-se na fé;
· Desde o início foi eclética em sua seleção de metodologias no processo de ensino-aprendizagem;
· Contribui com diversos métodos para a formação integral, social, moral e religiosa da pessoa;
· Pretende alcançar o objetivo da educação jesuíta;
· O Projeto Pedagógico Inaciano destina-se primeiramente aos professores, pois são estes que interagem no processo ensino-aprendizagem para que possam alcançar as metas e objetivos educativos da Companhia.
Decorrerá a partir destas notas, o que é a Pedagogia Inaciana, seu objetivo, os exercícios espirituais e as etapas previstas que são: contexto, experiência, reflexão, ação e avaliação.


A Pedagogia Inaciana e seu objetivo
A pedagogia é a arte e ciência de ensinar e não pode ser reduzida a uma mera metodologia, pois é o caminho que os professores acompanham o desenvolvimento e crescimento de seus alunos. Referindo-se à MORIN (2001), o conhecimento não pode ser considerado como ferramenta, mas como uma educação de estudos das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos e seus processos. Esse conhecimento por meio de paradigmas que controlam a ciência podem revelar ilusões, pois o conhecimento científico não pode tratar dos problemas éticos que envolvem a construção de valores e atitudes, conforme a Pedagogia Inaciana.
O objetivo maior da educação jesuíta é, em primeiro lugar, o desenvolvimento global da pessoa, que conduz à ação inspirada pelo espírito e a presença de Jesus Cristo, filho de Deus e “ Homem para os outros”.
Para Kolvenbach (2003:23), que proporciona um objetivo mais detalhado:

Este objetivo orientado para a ação baseia-se numa compreensão reflexiva e vivificada pela contemplação, e desafia os alunos ao domínio de si mesmos e à iniciativa, integrante e exatidão. Simultaneamente, distingue as formas de pensar fáceis e superficiais, indignas do indivíduo, e sobretudo perigosas para o mundo que eles são chamados a servir.
O objetivo exposto por Kolvenbach (2003) orienta os educadores para o que realmente é necessário para uma educação do futuro, pois nada é novo, e sim resgata valores perdidos com o passar do tempo.
Para que o educando inicie qualquer processo de aprendizagem, é preciso que aprenda a conhecer porque assim, supera a tendência atual da hiperespecialização, da fragmentação, da separação, da compartimentação dos saberes e das disciplinas.
Assim, se os educadores e educandos se atentarem ao objetivo da Pedagogia Inaciana, utilizando-se do pensamento adequado, poderão fazer da educação não mera metodologia, mas a formação integral e cristã ajudando o próximo para que o mundo seja mais humano e não de falsas certezas.

O contexto
Para que possa haver compreensão do Paradigma Pedagógico Inaciano deve-se estimular a abertura ao desenvolvimento, mesmo que o educando tenha concluído um ciclo de estudos.
Para que o educando esteja aberto às novas experiências é primordial que o educador conheça-o e a partir desse conhecimento forme uma idéia do candidato para iniciar com sua experiência.
A atenção pessoal e preocupação com o aluno é o distintivo da educação jesuíta, necessitando ainda mais que o educador conheça sobre a vida de seu aluno, produzindo uma experiência humana, o ponto de partida da pedagogia inaciana. Os educadores devem se preocupar também com a família, os amigos e os companheiros de seus educandos.
A relação entre educador e educando é de verdadeira autenticidade, confiança e respeito que sustentam uma constante experiência com o outro.
Os educadores e demais membros da comunidade educativa devem considerar:
· O contexto real da vida do educando;
· O contexto sócio-econômico, político e cultural;
· O ambiente institucional do colégio;
· Os conceitos adquiridos previamente que os educandos trazem consigo no início do processo de aprendizagem.
O segundo saber necessário à educação do futuro são os princípios do conhecimento pertinente e este situa o contexto um grande problema para ser enfrentado, pois as informações ou dados isolados, são insuficientes. É preciso situar todas as partes e informações, além da parte organizacional da sociedade para que adquiram sentido. O multidimensional engloba a sociedade e os seres humanos que são as unidades complexas.
Nessa perspectiva, tanto a pedagogia inaciana como o saber necessário à educação do futuro preocupam-se com o contexto da aprendizagem.

A experiência

A experiência para Inácio significa “saborear as coisas internamente”, isto quer dizer, ter conhecimentos dos fatos, conceitos e princípios. Somente com a compreensão exata do que se está considerando, é possível alcançar uma aprendizagem significativa.
Para Kolvenbach (2003:49)
A experiência (...) Exige do indivíduo que seja sensível às conotações e matizes das palavras e aos acontecimentos, que analise e avalie as idéias, que raciocine.

Para que qualquer atividade seja realmente significativa na aprendizagem do educando, é necessário que esta experiência interna seja sentida por cada um dos envolvidos, compreendendo e avaliando a importância dela e que a partir deste ponto o seu universo de conhecimento amplie com a experiência da imaginação.
Segundo Kolvenbach, “ a experiência humana pode ser direta ou indireta”.Nesta afirmação, o projeto pedagógico deve promover os dois tipos de experiências, pois na direta, a família, amigos e companheiros deverão permanecer próximos ao educando ,permeando uma relação interpessoal. E na experiência indireta, o projeto corrobora por meio das informações adquiridas no seu universo de conhecimento.
Morin, quando expõe sobre “ensinar a compreensão”, explica que todo desenvolvimento humano significa o conjunto das autonomias individuais e das participações comunitárias, completando a pedagogia inaciana, em que o educando experimente novas situações para que sua aprendizagem seja sempre uma nova experiência.

A reflexão

A reflexão busca um processo formativo e libertador, em que o educando formará a partir dos conhecimetos adquiridos, uma consciência crítica sobre ele e também os valores, crenças e atitudes que este pode transmitir.
Kolvenbach explica (2003:54)


Para Inácio, “discernir” significava esclarecer as próprias motivações internas, os objetivos que agiam por trás de suas opiniões; pôr em questão as causas e implicações do que experimentara, ponderar as possíveis opções e avaliá-las à luz de suas provaveis conseqüências, para obter um objetivo pretendido: ser uma pessoa livre, que busca, encontra e executa a vontade e DEUS em cada situação.

Discernir sobre as atitudes que podem ter em suas vidas e os valores adquiridos por meio dos conteúdos, são reflexões que os educandos passarão para que consigam alcançar o objetivo proposto por Inácio, ser um indivíduo livre que busca, encontra e realiza a vontade de Deus. Assim, os educandos com esta motivação interna, serão reflexivos.
Para Morin, é necessário que se reconheça um princípio de incerteza racional, quando a autocrítica cai na ilusão racionalizadora. E nessa verdadeira racionalidade deve ser não apenas teórica e crítica, mas também a autocrítica, quando o educando reflete, ele faz esta autocrítica para desenvolver mais ainda suas potencialidades.
Segundo Kolvenbach (2003:59)
Por outro lado, sabemos que a experiência e a reflexão não são fenômenos separáveis. Não é possível ter uma experiência sem um mínimo de reflexão, e todas as reflexões implicam algumas experiências intelectuais ou afetivas, intuições ou ilustrações, uma visão do mundo e dos outros.


Assim, não há experiência sem reflexão, nem reflexão sem experiência. Não podemos acreditar que nossos educandos chegam até o presente momento, sem qualquer experiência de vida ou um conhecimento prévio. A busca de novos valores e atitudes, farão deles seres que praticam a verdadeira ação do bem e com uma formação integral.


A ação

Kolvenbach explica ( 2003: 60 - 61) :

A palavra AÇÃO refere-se aqui ao crescimento humano interior baseado na experiência na qual se refletiu, bem como sua manifestação externa.

Existem dois tipos de ações: a ação de partilha do conhecimento, em que os alunos expressem oralmente ou por meio de desenhos, escritas, relatos o conhecimento adquirido e ainda a ação de intervenção solidária, que tem como principal objetivo promover situações para que o educando pratique o bem e desenvolvendo valores e atitudes para com o próximo.
Morin (2000), no terceiro saber que é o “ensinar a condição humana”, explica que esse saber deveria ser o objeto essencial de todo o ensino, pois é com base nas disciplinas atuais que o educando reconhece a unidade e a complexidade humana; reuni e organiza conhecimentos nas ciências da natureza, nas ciências humanas, na literatura e filosofia, colocando em evidência a unidade e a diversidade de tudo o que é humano.
No sexto saber novamente descreve do humano e o homem que faz parte da sociedade e da espécie e é um circuito fundamental para sua vida enquanto pessoa. Situa o homem não apenas como qualquer homem e sim aquele que pode fazer a diferença nesta nova perspectiva.
Para concluir a ação, Libanio retrata que “o caminho da autêntica formação para viver juntos passa por uma dupla descoberta: a do valor próprio e a do valor dos outros”.

A avaliação

A pedagogia inaciana visa conseguir uma formação que não só inclua o domínio das matérias, preocupa-se com o equilíbrio no desenvolvimento dos educandos como “pessoas para os outros”. Assim, é essencial a avaliação periódica do seu progresso nas atitudes, prioridades, modo de proceder com o objetivo de ser pessoas para os outros.
Há diferentes modos de avaliar o processo de maturação humana. Tudo deve ser levado em consideração: a idade, o talento e o nível de desenvolvimento de cada aluno. Nesta perspectiva que entra as relações de respeito e confiança mútua, que sempre deveriam existir entre professor e aluno, criando uma oportunidade propícia para falar sobre a maturidade.
O momento avaliativo deve ser privilegiado tanto para o educando como para o educador, este por sua vez deve parabenizar seu educando por todo esforço despendido como para estimular a reflexão interior à luz dos pontos obscuros ou lacunas detectadas pelo próprio educando.
Para Kolvenbach (2003: 23):

Para Inácio, Deus é Criador e Senhor, Supremo Bem, a única realidade que é absoluta; todas as demais realidades procedem de Deus e têm valor somente enquanto nos conduzem a Deus.

Morin, no sétimo saber necessário à educação do futuro “a ética do gênero humano”, retrata as duas grandes finalidades ético-políticas do novo milênio que é de estabelecer uma relação entre sociedade e indivíduos pela democracia e conceber a humanidade como comunidade planetária. A educação não deve somente contribuir para a consciência a “Terra-Pátria”, mas também que essa consciência permita e seja vontade de realizar a cidadania terrena.
A finalidade, para Morin, é a busca da hominização na humanização, pelo acesso à cidadania terrena.

Conclusão

Aprender a conhecer e a pensar é fundamental num mundo de muitas informações e de poucos pensamentos. Hoje a formação é um processo complexo, porém não significa sem mais a pluralidade de fatores que interferem.
Para Morin, cabe à educação do futuro cuidar para que a idéia de unidade da espécie humana não apague a idéia de diversidade e que a diversidade não apague a unidade. A educação deverá ilustrar este princípio de unidade/diversidade em todas as esferas do conhecimento.
Para a Pedagogia Inaciana, a missão é de cativar as mentes e os corações das novas gerações, pois a pedagogia de Inácio está centrada na formação da pessoa, coração, inteligência e vontade, provocando nos educandos a discernirem o que estudam mediante a reflexão, ao invés de uma simples memorização, estimulando-os para a abertura e o crescimento, respeitando assim, o nível de cada desenvolvimento do educando.
Os resultados da Pedagogia Inaciana, não alcançarão o ideal, mas a busca deste ideal com fé, respeito pela vida, a ações responsáveis baseadas num juízo moral.
Contudo, o presente trabalho elabora um parecer sobre a pedagogia inaciana, os pontos desenvolvidos nas propostas pedagógicas e o seu maior objetivo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Amiga, você está fera em Pedagogia Inaciana, heim?
Parabéns! Seu blog e suas idéias estão ótimos!!!!
Beijo,
Lú